XXXI. O Interstício #1
Não tinha mais que sete anos no meu primeiro encontro com a Estrada

Não tinha mais que sete anos no meu primeiro encontro com a Estrada. A serração não permitia que se enxergasse nada com clareza, apenas as nubladas luzes dos veículos à distância, em suas infinitas jornadas. O som do motor do ônibus, que na época tomava proporções colossais frente à minha estatura infantil, era a única coisa que cortava o silêncio daquela noite. O calor que emanava daquele titã sobre rodas parecia ser o limiar entre a segurança e previsibilidade do interior dele e a Estrada lá fora, cuja escuridão e silêncio pareciam guardar todos os mistérios da existência.
A ausência das comuns distrações, como os telefones que nessa época só eram usados para ligações, permitia um nível superior de atenção e observação, ainda aguçado pela tão curiosa mente infantil. Havia formas e figuras que se destacavam entre as luzes da Estrada e bastava um período mais longo de observação para que a mente começasse a dar outros contornos para formas já conhecidas. Árvores se assemelhavam a pessoas, as luzes dos faróis pareciam escapar do caminho da Estrada e ascender aos céus ou descer ao subterrâneo, placas pareciam indicar o mesmo caminho já trilhado e tudo parecia igual, como numa viagem em círculo num lugar místico.
Olhar por muito tempo em direção à escuridão total era insuportável, com o breu dando lugar à imaginação e o medo. Meu avô, em sua serenidade, encarava a Estrada de frente, acompanhando sempre o motorista, um companheiro para infindáveis conversas, garantindo ao mesmo tempo que o condutor ficasse acordado e, talvez, servindo como uma segunda camada de pragmatismo para que os quilômetros de escuridão não tivessem efeitos adversos na mente do normalmente solitário motorista. Nunca fui capaz de acompanhá-lo: a Estrada me causa tamanha impressão que me sinto hipnotizado, incapaz de servir a algo que não meu próprio inconsciente atraído pelo que existe no caminho e, principalmente, pelo que não existe.
Muito tempo depois sonhei que tomava carona por uma rota conhecida por ser um lugar que atormentava os condutores com irresistíveis e aterrorizantes visões de todo gênero, comumente levando-os a acidentes ou, ainda pior, a parar o veículo e se deixarem tragar pela escuridão e pelas visões. Cético e debochado, tecia comentários espirituosos do banco de trás enquanto serpenteávamos pelo caminho, que cessaram quando a motorista precisou passar para mim a direção, visivelmente abatida, num estado quase catatônico. Bastou engatar a quinta marcha e manter uma velocidade constante para que todo tipo de horror surgisse, inicialmente na visão periférica, até que começasse a aparecer repetidamente à minha frente na Estrada, desaparecendo na neblina conforme me aproximava.
O interior do carro, antes preenchido por música, conversa e vida, se tornou o mais sepulcral dos ambientes, fazendo com que me visse totalmente sozinho, ainda que tendo certeza da presença dos outros, só restando torcer pela intervenção de alguém que me retirasse daquele transe. Algum tempo depois - que podiam ser segundos ou horas - já havia abandonado a esperança, certo de que seria consumido pela escuridão e pelas assombrosas figuras que se multiplicavam ao meu redor, certamente já dentro do carro, apenas aguardando que eu estacionasse. Assim o sonho teve fim. A escuridão do quarto me trouxe, pela primeira vez em muitos anos, uma sensação de perigo iminente. Cobri a cabeça com o cobertor, num gesto pouco efetivo e menos ainda racional, buscando proteção de nada além do medo.
Mas divago: ainda que a escuridão seja parte integral da Estrada, está longe de ser seu único elemento e, ainda que o terror seja parte integral da escuridão, não é a única coisa que lá habita.
no aniversário de 36 anos da série, finalizei a segunda temporada de Twin Peaks (1990) e o filme Twin Peaks: Fire Walk with Me (1992). me encontro com uma nova obsessão. reitero: obrigado por tudo, Lynch.
me encontro ansioso pelo lançamento de Duna 3 (2026), no timing perfeito já que encerrei a leitura de Messias de Duna (1969) no início desse ano e estou no meio de Filhos de Duna (1979). obrigado por tudo Frank Herbert e Denis Villeneuve.



